Cacildo Alves Nascimento[1]
Ao discutirmos o processo de ocupação
da América pós independência, sobretudo olhando para os Estados Unidos da
América e o Brasil, temos dois historiadores que tratam bem essa questão, são
eles: Turner nos EUA e Buarque de Holanda no Brasil. Conforme podemos observar
o historiador brasileiro bebe na mesma fonte que Turner para conceituar a
fronteira, apesar dos percalços o processo de ocupação do interior do Brasil se
assemelha em alguns aspectos com o avanço da fronteira americana a oeste nos
Estados Unidos da America.
Turner foi um historiador estadunidense
que desenvolveu uma das mais importantes teorias a respeito da fronteira,
Turner inicialmente teve contato com a escola teutônica, a qual tinha como base
o legado europeu na constituição do americano, sobretudo a genética teutônica,
porém o mesmo não foi cultor dessa escola. O referido historiador chama atenção
para a conceituação de fronteira, pois a fronteira Americana é diferente da
fronteira européia, pois a européia é uma fronteira política em que divide dois
estados, enquanto a fronteira americana é uma “linha divisória entre a terra
povoada e a terra livre, ou o ponto de encontro entre o civilizado e o
primitivo” (TURNER apud WEGNER, 2000:98)
e para tal situação é acunhado o termo wilderness.
Para Turner a fronteira forjou a nação
americana, e valores como a democracia e o individualismo são resultados das
dificuldades impostas pela fronteira, o dinamismo da fronteira americana não se
dá apenas pelas oportunidades abertas da terra livre, mas pelo contato do
pioneiro com a sociedade primitiva, já que o mesmo em muitos momentos viu-se
obrigado a adequar-se o modo de viver dos nativos na sua relação com a
natureza.
A fronteira é o local do contato entre
o civilizado, selvagem e ambiente muitas vezes inóspito é o resulta é algo que
não é a Europa e nem a semente alemã é um produto novo, o americanos (TURNER apud WEGNER, 2000:100).
A tese de Turner sobre fronteira se
compreende em três etapas, sendo a primeira a adaptação do homem, ou melhor, do
adventício termo usado por ele, ao ambiente, pois a fronteira é mais forte do
que o homem; o segundo momento é a transformação do ambiente pelo adventício,
isso ocorre devido o homem já ter o que Turner chama de “legado cultural”; o
terceiro momento é o rearranjo do legado europeu a tradição indígena e isso
gera o americano.
A fronteira é um processo natural que
ocorre com a humanidade o qual a Europa já passou, mas o que ocorreu no que
viria serem os Estados Unidos da America ocorreu de maneira muito mais rápida
do que em outras regiões do planeta. A fronteira americana tem a característica
de válvula de escape, apesar de que o terno utilizado por Turner é o de “gate of scape “- portão de
escape, pois esse portão de escape garantia a segurança e a estabilidade
nacional.
Após discutirmos a fronteira na
perspectiva de Turner, discutiremos a partir de então a fronteira segundo a
perspectiva de Buarque de Holanda, pois em vários momentos da discussão a tese
de Holanda aproxima da tese de Turner, já que o brasileiro foi bastante
influenciado pela tese do estadunidense.
Um dos primeiros pontos que Holanda
diverge de Turner é quanto aos meios de transportes utilizados para conquistar
o Oeste, pois nos EUA, usava-se o cavalo como o seu principal meio transporte
enquanto os bandeirantes usavam as canoas ou pirogas para navegar nos rios
brasileiros rumo à conquista do Oeste. Quanto ao contato com o meio Buarque de
Holanda aproxima de Turner, pois o bandeirante se adapta ao meio em que se
encontra, e em seguida lança mão da sua bagagem cultural e constroem meios para
se proteger de mosquito e proteger os alimentos e nesse contexto surge algo
novo que é resultado da fronteira assim como ocorre na fronteira americana,
pois os meios mudam, porém os processos são semelhantes.
Uma das passagens de Buarque de Holanda
que ilustra bem o que foi citado acima é quando o mesmo trata da “Civilização
do milho” no planalto paulista, temos o produto nativo que é o milho, a técnica
sendo o monjolo ou moinho para o beneficiamento desse produto e o resultado
desses dois elementos – fronteira.
Outro fator que diferencia o processo
de expansão Oeste brasileiro do estadunidense é quanto à plasticidade de seus
colonizadores, segundo Buarque de Holanda os portugueses tinham uma
plasticidade maior do que aos dos ingleses e isso facilitou o contato e aproximação
do conquistador com o meio, já que [...] “os portugueses e seus descendentes foram
“inexcedíveis” na capacidade de adaptação ao meio adverso e ao nativo”.
(BUARQUE DE HOLANDA, 2005:47).
É corrente no meio historiográfico a
facilidade de adaptação dos portugueses às condições adversas, principalmente
aos meios culturais e ambientais, pois os mesmos já tinham contato com povos
africanos e também a com a experiência escravista. Outro fator importante nessa
plasticidade portuguesa era a de que abaixo da Linha do Equador não existia
pecado, pois os padrões morais português eram bem mais flexíveis do que os
padrões anglo-saxônicos e isso fez com que os colonizadores tivessem certa
“harmonia” com os nativos ao contrário do ocorrido nos Estados Unidos onde
havia de certa forma confrontos, o que dificultou a integração e interação
entre os grupos civilizados e não civilizado e conseqüentemente a quase
extinção de grupos nativos.
Assim como na fronteira americana, a
fronteira brasileira se dá a partir da necessidade em que os “Civilizados” tem
para sua própria sobrevivência, sobretudo a partir de pressupostos econômicos,
como podemos exemplificar: os bandeirantes buscavam nas florestas a Oeste do
litoral da colônia índios para serem escravos em atividades econômicas na costa
leste, porém o caso americano segundo Turner e já mencionamos funciona como
“portão de escape”, o que podemos caracterizar de redução de conflitos sociais
e também a necessidade de expansão territorial e econômica; já no Brasil isso
só vai ocorrer com eficácia no século XX.
Portanto, após mencionarmos alguns
pontos das perspectivas de Turner e de Buarque de Holanda sobre fronteira, temos
uma dimensão de como esse processo ocorreu, pois são questões que se aproximam
muito e está presente em vários historiadores brasileiros, o que podemos
observar é que esse processo ocorre de maneira parecida e tem resultados
parecidos, mas não iguais, já que temos características ambientais
completamente diferentes da americana, os nossos colonizadores tinham outra
visão a respeito da colonização. Porém a junção de elementos nativos, mais a bagagem
cultural do europeu forjaram o “novo” – o americano e/ou brasileiro.
Referências
Bibliográficas.
WEGNER, Robert.
A Conquista do Oeste. A fronteira na
obra de Sérgio Buarque de Holanda. Belo
Horizonte, Editora da UFMG, 2000.
KNAUSS, Paulo. Oeste americano – quatro ensaios de
história dos Estados Unidos da América de Frederick Jackson Turner. Orgs.
Paulo Knauss. Tradução: Paulo Knauss e Ina de Mendonça. Niteroi, EdUFF, 2004.
[1] Formado em História na Universidade
Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e Mestrando do Programa de Pós-Graduação
em História (PPGHIS) da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Artigo
apresentado a disciplina de Expansão da Fronteira na Amazônia de Mato Grosso
(Séc.XX)
Nenhum comentário:
Postar um comentário