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segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Algumas reflexões sobre fronteira na perspectiva de Turner e Buarque de Holanda



Cacildo Alves Nascimento[1]
Ao discutirmos o processo de ocupação da América pós independência, sobretudo olhando para os Estados Unidos da América e o Brasil, temos dois historiadores que tratam bem essa questão, são eles: Turner nos EUA e Buarque de Holanda no Brasil. Conforme podemos observar o historiador brasileiro bebe na mesma fonte que Turner para conceituar a fronteira, apesar dos percalços o processo de ocupação do interior do Brasil se assemelha em alguns aspectos com o avanço da fronteira americana a oeste nos Estados Unidos da America.
Turner foi um historiador estadunidense que desenvolveu uma das mais importantes teorias a respeito da fronteira, Turner inicialmente teve contato com a escola teutônica, a qual tinha como base o legado europeu na constituição do americano, sobretudo a genética teutônica, porém o mesmo não foi cultor dessa escola. O referido historiador chama atenção para a conceituação de fronteira, pois a fronteira Americana é diferente da fronteira européia, pois a européia é uma fronteira política em que divide dois estados, enquanto a fronteira americana é uma “linha divisória entre a terra povoada e a terra livre, ou o ponto de encontro entre o civilizado e o primitivo” (TURNER apud WEGNER, 2000:98) e para tal situação é acunhado o termo wilderness.
Para Turner a fronteira forjou a nação americana, e valores como a democracia e o individualismo são resultados das dificuldades impostas pela fronteira, o dinamismo da fronteira americana não se dá apenas pelas oportunidades abertas da terra livre, mas pelo contato do pioneiro com a sociedade primitiva, já que o mesmo em muitos momentos viu-se obrigado a adequar-se o modo de viver dos nativos na sua relação com a natureza.
A fronteira é o local do contato entre o civilizado, selvagem e ambiente muitas vezes inóspito é o resulta é algo que não é a Europa e nem a semente alemã é um produto novo, o americanos (TURNER apud WEGNER, 2000:100).
A tese de Turner sobre fronteira se compreende em três etapas, sendo a primeira a adaptação do homem, ou melhor, do adventício termo usado por ele, ao ambiente, pois a fronteira é mais forte do que o homem; o segundo momento é a transformação do ambiente pelo adventício, isso ocorre devido o homem já ter o que Turner chama de “legado cultural”; o terceiro momento é o rearranjo do legado europeu a tradição indígena e isso gera o americano.
A fronteira é um processo natural que ocorre com a humanidade o qual a Europa já passou, mas o que ocorreu no que viria serem os Estados Unidos da America ocorreu de maneira muito mais rápida do que em outras regiões do planeta. A fronteira americana tem a característica de válvula de escape, apesar de que o terno utilizado por Turner é o de “gate of scape “- portão de escape, pois esse portão de escape garantia a segurança e a estabilidade nacional.
Após discutirmos a fronteira na perspectiva de Turner, discutiremos a partir de então a fronteira segundo a perspectiva de Buarque de Holanda, pois em vários momentos da discussão a tese de Holanda aproxima da tese de Turner, já que o brasileiro foi bastante influenciado pela tese do estadunidense.
Um dos primeiros pontos que Holanda diverge de Turner é quanto aos meios de transportes utilizados para conquistar o Oeste, pois nos EUA, usava-se o cavalo como o seu principal meio transporte enquanto os bandeirantes usavam as canoas ou pirogas para navegar nos rios brasileiros rumo à conquista do Oeste. Quanto ao contato com o meio Buarque de Holanda aproxima de Turner, pois o bandeirante se adapta ao meio em que se encontra, e em seguida lança mão da sua bagagem cultural e constroem meios para se proteger de mosquito e proteger os alimentos e nesse contexto surge algo novo que é resultado da fronteira assim como ocorre na fronteira americana, pois os meios mudam, porém os processos são semelhantes.
Uma das passagens de Buarque de Holanda que ilustra bem o que foi citado acima é quando o mesmo trata da “Civilização do milho” no planalto paulista, temos o produto nativo que é o milho, a técnica sendo o monjolo ou moinho para o beneficiamento desse produto e o resultado desses dois elementos – fronteira.
Outro fator que diferencia o processo de expansão Oeste brasileiro do estadunidense é quanto à plasticidade de seus colonizadores, segundo Buarque de Holanda os portugueses tinham uma plasticidade maior do que aos dos ingleses e isso facilitou o contato e aproximação do conquistador com o meio, já que [...] “os portugueses e seus descendentes foram “inexcedíveis” na capacidade de adaptação ao meio adverso e ao nativo”. (BUARQUE DE HOLANDA, 2005:47).
É corrente no meio historiográfico a facilidade de adaptação dos portugueses às condições adversas, principalmente aos meios culturais e ambientais, pois os mesmos já tinham contato com povos africanos e também a com a experiência escravista. Outro fator importante nessa plasticidade portuguesa era a de que abaixo da Linha do Equador não existia pecado, pois os padrões morais português eram bem mais flexíveis do que os padrões anglo-saxônicos e isso fez com que os colonizadores tivessem certa “harmonia” com os nativos ao contrário do ocorrido nos Estados Unidos onde havia de certa forma confrontos, o que dificultou a integração e interação entre os grupos civilizados e não civilizado e conseqüentemente a quase extinção de grupos nativos.
Assim como na fronteira americana, a fronteira brasileira se dá a partir da necessidade em que os “Civilizados” tem para sua própria sobrevivência, sobretudo a partir de pressupostos econômicos, como podemos exemplificar: os bandeirantes buscavam nas florestas a Oeste do litoral da colônia índios para serem escravos em atividades econômicas na costa leste, porém o caso americano segundo Turner e já mencionamos funciona como “portão de escape”, o que podemos caracterizar de redução de conflitos sociais e também a necessidade de expansão territorial e econômica; já no Brasil isso só vai ocorrer com eficácia no século XX.
Portanto, após mencionarmos alguns pontos das perspectivas de Turner e de Buarque de Holanda sobre fronteira, temos uma dimensão de como esse processo ocorreu, pois são questões que se aproximam muito e está presente em vários historiadores brasileiros, o que podemos observar é que esse processo ocorre de maneira parecida e tem resultados parecidos, mas não iguais, já que temos características ambientais completamente diferentes da americana, os nossos colonizadores tinham outra visão a respeito da colonização. Porém a junção de elementos nativos, mais a bagagem cultural do europeu forjaram o “novo” – o americano e/ou brasileiro.

Referências Bibliográficas.
WEGNER, Robert. A Conquista do Oeste. A fronteira na obra de Sérgio Buarque de Holanda.  Belo Horizonte, Editora da UFMG, 2000.
KNAUSS, Paulo. Oeste americano – quatro ensaios de história dos Estados Unidos da América de Frederick Jackson Turner. Orgs. Paulo Knauss. Tradução: Paulo Knauss e Ina de Mendonça. Niteroi, EdUFF, 2004.




[1] Formado em História na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e Mestrando do Programa de Pós-Graduação em História (PPGHIS) da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Artigo apresentado a disciplina de Expansão da Fronteira na Amazônia de Mato Grosso (Séc.XX)

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