Cacildo Alves Nascimento
Nuances das causas dos movimentos migratórios no Brasil
No Brasil após a segunda metade do século XX intensificou-se o processo migratório interno, principalmente para algumas regiões como o Centro-Oeste do país, esse movimento migratório denominou-se de Nova Fronteira Agrícola. Uma parte significativa de pessoas que estavam migrando nesse período era proveniente da região Sul em direção à região Centro-Oeste e Norte do Brasil, também há migrações para outras regiões.
Alguns fatores são apontados para tal movimento como conflitos agrários na região Sul do Brasil (SOUZA, 2001:30), sobretudo no Estado do Rio Grande do Sul e a necessidade do Estado brasileiro de uma ocupação econômica efetiva no Estado de Mato Grosso e região da Amazônia Legal.
Esse movimento migratório para a região Centro-Oeste modificou as características demográficas e econômicas da região (LISBOA, 2008:84) e isso é sentido ao longo dos anos, segundo Lisboa:
[...] fator associado às migrações no Brasil é a variação quanto aos aspectos naturais e a heterogeneidade da economia brasileira, associada a herança histórica de ocupação do território brasileiro, o que contribui para a concentração da população no espaço. As desigualdades econômicas espaciais impulsionam significativamente a população a buscar locais com maior desenvolvimento, desenvolvendo o interesse dos migrantes pelas áreas e setores mais dinâmicos. (LISBOA, 2008:88).
Esse fato é recorrente no movimento migratório nordeste/sudeste e também no chamado êxodo rural, nesse momento há uma grande concentração populacional nas grandes cidades brasileiras como São Paulo e Rio de Janeiro, já o movimento migratório denominado, Nova Fronteira Agrícola ocorre numa dinâmica diferente, sobretudo na década de 1980, pois nesse período o movimento migratório passa por uma nova reorientação, devido principalmente ao deslocamento da economia brasileira, momento esse, que as cidades médias passam a serem alvos dos migrantes e terem um crescimento econômico atrativo.
Entre os fatores de maior relevância que levaram as pessoas a migrarem no Brasil segundo Lisboa foram os fatores econômicos, e uma melhor ascensão social, também há outras causas segundo a autora que não podem ser negligenciadas como as causas “culturais, paisagísticas, familiares, psicológicas, pessoais etc.” (LISBOA, 2008:89), porém são fatores difíceis de determinar.
O foco da discussão nesse estudo é a migração e suas conseqüências causada, sobretudo pelo fator econômico, relacionada com a política de expansão da fronteira agrícola brasileira estabelecida a partir da década de 1970 pelo governo brasileiro através do Programa de Integração Nacional (PIN) (ROCHA, 2006:1) tendo como resultado o migrante gaúcho como agente modernizador da região ocupada.
O estado de Mato Grosso do Sul, antigo Mato Grosso uno até 1977[1], também foi foco de recepção das levas de migrantes vinda do Sul, principalmente em algumas regiões como Dourados no Sul, Chapadão do Sul no Leste e São Gabriel do Oeste no Norte, porém outras localidades no estado como Coxim[2], onde se realiza o presente estudo, receberam números significativos de migrantes, mas nenhum incentivo específico como o Programa de Desenvolvimento do Centro-Oeste (PRODOESTE), Programa de Desenvolvimento da Região da Grande Dourados (PRODEGRAN), Programa de Desenvolvimento do Pantanal (PRODEPAN) e o Programa de Desenvolvimento dos Cerrados (POLOCENTRO), porém era uma cidade que estava às margens de umas das obras símbolo do desenvolvimento da época, a Rodovia BR 163, por onde deveria passar toda produção do norte de Mato Grosso e Sul da Amazônia em direção aos portos de exportação de Paranaguá (PR) e Santos (SP).
Nesse momento a proposta desse trabalho é analisar a condição transitório-constante do migrante gaúcho que se fixou na região norte de Mato Grosso do Sul e a espinha dorsal é a (re) construção da identidade gaúcha informada pelos participantes do Centro de Tradições Gaúchas que se vêem como pioneiros desbravadores e modernizadores (ROCHA, 2006: 2).
A idéia de Rocha vai ao encontro com as de Haesbaert, pois
São muito conhecidas a “tradição (i)migrante” que muitos sulistas dizem “levar no sangue” (“europeu”, ou seja, de descendentes de italianos e alemães) e características que, interna e/ou externamente difundidas, fazem deste migrante um “pioneiro”, um desbravador” e até mesmo um “novo bandeirante” que tem expandido nas ultimas décadas parte da “modernização” (agrícola basicamente) do interior brasileiro. (HAESBAERT, 1998:56).
Essa idéia de pioneirismo e modernizador é possível perceber no próprio discurso do migrante oriundo Rio Grande do Sul, pois quando perguntado sobre a importância da migração para Mato Grosso do Sul a resposta é a seguinte:
O Estado deve muito a migração, pois a migração trouxe a modernização da agricultura, da pecuária, a pecuária é mais ligada aos paulistas [...] os gaúchos têm mais tradição agrícola e modernizou a agricultura e os nordestinos não, então essas colônias voltaram a ser fazendas novamente. (Moacir Kohl, imigrante gaúcho, empresário e político em Coxim-MS, 2009)
Com esse discurso voltamos novamente em Haesbaert, que nos apresenta uma identidade homogeneizadora criada acerca do gaúcho e essa superioridade em que se colocam os “gaúchos” ou os colocam é reforçada ainda mais quando se compara com outros grupos sociais, principalmente nordestinos, que tem o estigma de preguiçosos e etc. como podemos observar na citação acima feita por um gaúcho ou trabalhos como o de Haesbaert.
Quando se fala em moderno nos remetemos ao pensamento de “desencaixe sociológico”, pois essa é a noção a qual utilizaremos, e dentro dessa lógica tentaremos encaixar o processo migratório e o gaúcho que migrou para novas áreas de colonização. O período em que estudamos que é a partir das décadas de 1970 a 1990 é o momento em que Estado brasileiro está na eminência da modernização, que poderíamos também chamar de avanços do capitalismo (HAESBAERT, 1998:56/57) no Cerrado. Momento esse em que chega à região as principais lojas de implementos agrícolas com equipamentos de ultima geração e também insumos e sementes desenvolvidas principalmente pela EMBRAPA.
Esse processo de modernização do estado brasileiro vai ao encontro com a idéia de moderno defendida por Lipovetsky, pois não só a sociedade como o estado vive a questão do urgentismo, pois o próprio lema dos governos na época que era de “integrar para não entregar”. A expansão da fronteira agrícola brasileira era um projeto de certo modo futurista, onde a modernização traria um futuro próspero transformando regiões de baixa produtividade em regiões com altos índices de produtividades e economicamente rentável, “[...] fato é que nossas sociedades continuam voltadas para o futuro, menos românticas e paradoxalmente mais revolucionárias, pois se dedica a tornar tecnicamente possível o impossível” (LIPOVETSKY, 2004:68). Isso é percebido quando os colonizadores chegaram à região do cerrado e tornaram o solo ácido em áreas propícias à agricultura com ajuda de recursos financeiros e tecnológicos (WEINGARTNER, 2005:37). Não tornaram somente o solo cultivável, mas criaram cidades que é a máxima da modernização.
Sem dúvidas, os interesses econômicos imediatos têm precedência sobre a atenção para com as gerações futuras. Durante esse espetáculo de protestos e de chamamentos virtuosos, a destruição do meio ambiente continua: o máximo de apelos à responsabilidade de todos, o mínimo de ações públicas. Mas o fato é que as preocupações referentes ao futuro planetário estão bem vivas; elas habitam e alertam permanentemente a consciência do presente, alimentando as controvérsias públicas, solicitando medidas de proteção para o patrimônio natural. (LIPOVETSKY, 2004:69)
Essas questões da modernidade são bastante percebidas no processo migratório e colonizador brasileiro, pois houve certa preocupação com a questão do imediatismo econômica e, no entanto, outras questões como a destruição das florestas, ocupação de áreas indígenas entre outros fatores não houve o mínimo de preocupação, tudo isso é fruto do processo de modernização da sociedade vigente.
O migrante gaúcho como relatamos anteriormente é tido como o pioneiro, desbravador e modernizador, pois migração da qual tratamos é um produto da modernidade conforme podemos confirmar em Haesbaert: “A migração tem antes de tudo uma base econômica, pela pressão e a expansão da dinâmica capitalista, embora também carregue, de forma indissociável, o mito “imigrante” de dominação e difusão de inovações em outras terras” (HAESBAERT, 1998:57). A base econômica afirmada pelo autor nos mostra com clareza o papel do migrante gaúcho nesse processo econômico social brasileiro, denominado Fronteira Agrícola e também em outros processos de expansão da fronteira brasileira.
Nessa discussão de modernidade, sobretudo relacionando com o elemento gaúcho, notamos em alguns trabalhos, principalmente o de Haesbaert, onde trás uma perspectiva importante que é a “distinção do migrante gaúcho em relação aos demais brasileiros”, pois são seres que cultuam e revivem o movimento tradicionalista nos Centro de Tradições Gaúchas (CTG), porém muitas vezes esse tradicionalismo está intrínseco na identidade desses sujeitos, no entanto se julgam o povo mais tradicionalista e ao mesmo tempo progressista. Pois esse migrante se auto-afirma como gaúcho arraigado em questões culturais e na tradição e ao mesmo tempo sobrepõem aos demais como elemento modernizador no campo social e econômico.
Portanto, é possível perceber a relação entre migração e modernização no processo de consolidação de colonização e expansão do capitalismo na sociedade brasileiro.
Fronteira e Desenvolvimento
A conceituação de fronteira que trataremos nessa discussão a principio é a de José de Souza Martins no qual ele trata a fronteira como cenário conflituoso entre seres humanos, sobretudo no território brasileiro, a partir do encontro entre o homem “branco” e o indígena, pois segundo Martins “na fronteira, o chamado branco e civilizado é relativo e sua ênfase nos elementos materiais da vida e na luta pela terra também o é” (MARTINS, 2009:10).
A conceituação de fronteira para Martins não somente ligado ao aspecto geográfico, mas ao aspecto social e cultural, pois para o autor
[...] a fronteira como lugar privilegiado da observação sociológica e do conhecimento sobre os conflitos e dificuldades próprios da constituição do humano no encontro de sociedades que vivem no seu limite e no limiar da história. É na fronteira que se pode observar melhor como as sociedades se formam, se desorganizam ou se reproduzem. É lá que melhor se vêem quais são as concepções que asseguram esses processos e lhes dão sentido. Na fronteira, o homem não se encontra – se desencontra. Não é nela que a humanidade do outro é descoberta como mediação da gestação do Homem (MARTINS, 2009:10).
Essa conceituação de fronteira estabelecida pelo autor, de alteridade onde a característica principal é o conflito social, e também as diferentes temporalidades poderíamos dialogar com as conceituações de modernidades de Lipovetsky ou de Giddens a respeito do “desencaixe sociológico”, pois “a modernidade está ligada a confiança nos sistemas abstratos, ou ‘sistemas peritos’, acrescentamos que ela requer a confiança dos agentes econômicos no futuro como condição para o desenvolvimento da atividade produtiva” (GIDDENS, 1994 apud LIPOVETSKY, 2004:70). Assim podemos observar como essa fronteira está estritamente ligada ao conceito de modernidade, ela é um “desencaixe sociológico” que ocorre na construção do estado brasileiro, pois são elementos típicos na modernidade e também típicos da conceituação de fronteira estabelecida por Martins.
Situações como essas podemos comparar ao processo de colonização realizada pelos gaúchos em diversas regiões do Brasil, pois quando os mesmos chegaram às regiões para colonizar, podemos afirmar que eles não foram os primeiros a ocuparem essas áreas, porém foram os pioneiros a utilizar esses espaços de maneira racional e destiná-lo ao desenvolvimento econômico. A ocupação de áreas antes ocupadas por outros povos sejam eles indígenas ou sociedades locais residentes ali; pois essa situação cria o cenário de conflito conforme Martins:
Movimento de expansão territorial que, invariavelmente, resultou e tem resultado no massacre das populações nativas, sua drástica redução demográfica e até seu desaparecimento. O deslocamento progressivo das frentes de expansão tem sido, na verdade, um dos modos pelos quais se dá o processo de reprodução ampliada do capital, o da sua expansão territorial. Um outro momento desse modo de expansão tem sido o que se dá através do deslocamento das chamadas frentes pioneiras. Ambas, na verdade, são faces e momentos distintos da mesma expansão. (MARTINS 2009: 24).
Os movimentos de expansão capitalista para o interior do Brasil vêm ocorrendo há várias décadas, mas a partir da década de 1950, esse processo se intensificou nas regiões Centro-Oeste e Norte do país, e também aumentaram os conflitos por disputa de terras nessas regiões seja ela entre indígenas e colonizadores ou entre trabalhadores rurais e colonizadores.
De acordo com o mencionado antes a fronteira na qual estamos tratando não se restringe somente ao limites geográficos, mas aos limites culturais, sociais, econômicos e entre civilizados e não civilizados. Quando buscamos concentrar os esforços da pesquisa para a migração gaúcha em Mato Grosso do Sul especialmente para a região norte, é talvez palpável de certa maneira a fronteira entre os migrantes gaúchos e os demais migrantes e a população. Fato esse que podemos confirmar em Martins que diz “[...] a situação de contato, a sociabilidade que demarca a convivência, dominada pela diferença e pelos desencontros étnicos no espaço ainda indefinido da frente de expansão, constitui uma realidade sociológica sui generis” (MARTINS, 2009: 24).
De acordo com o autor citado essa relação entre grupos sociais levam ao confrontamento, pois são grupos que tem trajetórias sociais diferentes e no caso dos gaúchos, isso é notório conforme HAESBAERT (1998), já que eles têm um movimento de auto-afirmação que é concretizado nos CTGs, e se vêem como povos distintos em relação aos demais brasileiros. A fronteira como frente de expansão segundo Martins é um foco tensão, onde se vive a dualidade de um processo histórico entre o civilizado cristão e o não civilizado índio e pagão, porém no caso de Coxim vemos a mesma tensão, porém os atores são outros; o nordestino e o habitante locais que ainda estão em estágio de desenvolvimento econômico “atrasado” versus o migrante gaúcho com elevado grau de conhecimento acadêmico, poder econômico e um padrão econômico elevado, fatores que podemos perceber em trechos de entrevistas realizados com gaúchos residentes em Coxim, pois de acordo com os mesmos,
Os gaúchos que vieram para cá vieram com capital, são especializados na agricultura, pois na minha geração tem 66 netos só 02 não são formados, com nível superior, eu sou agrônomo, meu irmão, o Evaristo é agrônomo, tem outros que são também, outros são veterinários, médicos, dentistas, etc. já os nordestinos são retirantes, não tinham capital, são a maioria analfabeto ou semi-analfabetos, vivem da exploração da terra, pois enquanto a terra dá dando alguma coisa estão lá, como retirada da madeira, são extrativistas. (Moacir Kohl, imigrante gaúcho, empresário e político em Coxim-MS, 2009)
O gaúcho contribuiu com a pecuária, a agricultura e a abertura de empresas e também a modernização do campo de modo geral, pois muitas coisas não existiam aqui e com a chegada dos gaúchos passaram a existir como empresas que vende máquinas agrícolas e o próprio setor secundário. (Dorvalino Vieira, agropecuarista em Coxim-MS, 2009)
Observa-se em algumas entrevistas realizadas com migrantes que integram ao tradicionalismo, que os mesmos estabelecem fronteiras entre si e os demais, principalmente com a afirmação do academicismo e nível econômico, e perceptível como a todo o momento eles próprios se afirmam como agentes modernizadores da determinada região. Para Martins quanto há uma situação de tensão e sinal que há reconhecimento dessa fronteira que para ele é chamado de “lado de cá”, então é preciso que reconheça a área de estranhamento da fronteira que é o “lado de lá”, esse processo tem ocorrências maiores na relação entre colonizadores e indígenas na ocupação do solo, mas também poderíamos levar essa situação para do espaço econômico e social.
Portanto o que podemos observar nessa discussão até o presente momento é que a fronteira é uma situação social de alteridade e de tensão entre os grupos sociais (MARTINS, 2009:30) e nessa perspectiva buscamos tratar das identidades dos elementos sociais que compõem essa fronteira, principalmente do elemento gaúcho que o é foco dessa discussão. Porém para uma melhor compreensão é preciso discutir o desenvolvimento nessas fronteiras.
O que observamos é que as fronteiras estabelecidas através dos limites geográficos resultam na fronteira em que discutimos que é o foco de tensão entre os grupos sociais
A ocupação, ou melhor, colonização no estado brasileiro teve como um dos seus objetivos resolverem problemas sociais e a expansão do capitalismo numa ótica imediatista, pois precisava modernizar o país, então os governos pós década de 1950, principalmente os militares viabilizam projetos para a ocupação e o desenvolvimento do interior do Brasil, esses projetos inicia-se antes dos governos militares com governo de Juscelino Kubitschek (1956 a 1961) e a construção da capital da República, Brasília, na região Centro-Oeste e tem seguimentos com os governos militares com grandes projetos desenvolvimentistas como o PND (Plano Nacional de Desenvolvimento) desenvolvido inicialmente em 1972 conjuntamente com programas de desenvolvimento para cada região com o PRODOESTE (Programa de Desenvolvimento do Centro-Oeste) PRODEGRAN (Programa de Desenvolvimento da Região da Grande Dourados), PRODEPAN (Programa de Desenvolvimento do Pantanal) e o POLOCENTRO (Programa de Desenvolvimento dos Cerrados).
A partir de 1960 com os governos militares iniciam-se as grandes obras de desenvolvimento entre elas estão à construção de rodovias como a Transamazônica e a BR 163, por onde deveria passar a produção conforme dito antes.
De acordo com Rocha a década de 1950 o governo redefine a política de ocupação e colonização, sobretudo no estado de Mato Grosso, pois essa área deixa de ser um relativo vazio econômico capitalista para se tornar áreas integradas à economia nacional e absorver o excedente demográfico de outras regiões. “O Mato Grosso passou a integrar o escopo da política de valorização da Amazônia que no plano político encontrou respaldo na doutrina de segurança, integração e desenvolvimento nacional cujo discurso oficial era integrar para não entregar” (ROCHA, 2006:22). Em conformidade com a citação e em outras leituras é perceptível como Mato Grosso está inserido no processo de desenvolvimento traçado pelos governos militares, pois de acordo com a autora a proposta era aliar o capital ao latifúndio na consolidação do projeto de modernização, porém essa modernização se deu maneira um tanto conservadora, pois foi um processo que privilegiou algumas regiões e alguns grupos sociais, pois era uma modernização induzida conforme nos mostra Graziano Silva: “nunca uma transformação dinâmica, auto-sustentada; pelo contrario, uma modernização induzida através de pesados custos sociais e que só vinga pelo ampara do estado” (GRAZIANO DA SILVA, 1982:40 apud ROCHA, 2006:23) e isso se podem observar nos projetos de colonização em Mato Grosso, onde o Estado é o principal parceiro das colonizadoras, porém o governo tinha certos critérios para tal parceria, geralmente era empresas ligadas a região Sul e os colonos deveriam ter origem sulina principalmente, a justificativa segundo Rocha era que os colonos vindos do sul tinham passado pela experiência de colonização anteriormente e por ter capital mesmo que pouco para investimento nessas áreas e a própria experiência com a agricultura. Além da colonização que ficaram na responsabilidade das empresas já citadas, também ficaram a responsabilidade pela criação e desenvolvimento de infra-estruturas nessas áreas como a criação de estradas, demarcação de terras e criação de núcleos urbanos entre outras.
Portanto, até o presente momento percebemos que a fronteira não se limita especificamente ao espaço geográfico, mas são áreas de tensões e conflitos entre grupos humanos e que elas surgem a partir da necessidade de modernizar e desenvolver o que resulta no desencaixe sociológico e poderíamos ir mais longe, resulta também na relação de poder estabelecida pelos grupos antagônicos.
Migração e poder
Para essa discussão buscaremos suporte teórico em Bertrand Russell, onde ela trata da conceituação sobre o poder, para o autor existe diversas forma de poder como o poder do discurso, poder da força, o poder da propaganda, o poder moral, poder econômico entre outras formas.
Então discutiremos como essas formas ou relações de poder se dão na migração, pois como vimos anteriormente o processo migratório é composto forças antagônicas ou como diz Martins (2009) são focos conflitantes, que é caso do colonizador e os indígenas ou habitantes, pois se sabe que as áreas que foram colonizadas não totalmente despovoadas, mas apresentava uma baixa densidade demográfica.
Para Russell (1979) o poder é coerção e “deriva do impulso do homem e a relação do mesmo com o tempo” e a partir de então, observamos que a relação de poder é predominante no âmbito da colonização é o poder econômico sobressaem, conforme observamos anteriormente, pois percebemos que as terras para ocupação foram destinadas principalmente aos colonos do sul, justamente por terem poder econômico superior aos demais migrantes, não só as áreas previstas para colonização, mas a responsabilidade de colonizar e implantar a estrutura conforme podemos confirmar em Rocha:
O migrante privilegiado na implantação destes projetos era “o colono do sul que por já ter passado pela experiência da colonização, traria o seu pecúlio para aplicar na propriedade e acima de tudo com outra mentalidade e relação ao trabalho, faria da produção uma atividade realmente lucrativa. Produziria, pois, como capitalista. (LENHARO, 1986:50 apud ROCHA, 2006:24).
O poder econômico é bastante presente no processo migratório, e percebemos que não é somente a relação de poder econômico que se dá nesse processo, mais a relação do poder cultural, social e também intelectual, conforme já vimos anteriormente.
À parte o poder econômico do trabalho, qualquer outro poder econômico consiste, em última análise, na capacidade de decidir, pelo emprego de força armada se necessário, quem terá o direito de se estabelecer num pedaço de terra e pôr coisas nele e tirar coisas dele. (RUSSELL, 1979:75)
O poder econômico estabelecido por Russel é derivado, pois depende de outros aspectos, e isso é perceptível no processo migratório e as duas citações anteriores nos dão a real dimensão de como isso ocorre, pois o migrante do sul é capaz de estabelecer em um pedaço de terra e tirar coisas dele conforme a própria orientação do governo no processo de colonização do interior do Brasil.
A relação de poder é algo presente nas discussões a respeito das migrações, fronteiras e identidades, mas conforme as discussões anteriores, principalmente a cerca de fronteira que é estabelecida um foco de tensão e modernidade que é o desencaixe sociológico, isso ocorre devido a própria relação de poder entre os migrantes e os habitantes locais, essa relação de poder também notamos na obra de Elias e Scotson (2000) “os estabelecidos e os outsiders”.
Para Elias e Scotson os estabelecidos ocupam posições de prestigio e de poder em seu grupo social, que são reconhecidos e auto-afirma como “boa sociedade”, pois seus antecedes, sejam eles culturais, tradicionais e sociais combinados os tornam melhores, enquanto os outsiders não apresentam esses adjetivos sociais “superioridade social e moral, autopercepção e reconhecimento, pertencimento e exclusão são elementos dessa dimensão da vida social que o par estabelecidos-outsiders ilumina exemplarmente: as relações de poder” (Elias e Scotson 2000:08).
Essa relação de poder que Elias e Scotson conceituam é bastante sentida na expansão da fronteira agrícola na qual estamos discutindo, porém ela se dá de forma inversa, onde o privilegiado é o migrante sulista, sobretudo os gaúchos, enquanto muitas vezes os outros que já ocupavam esses espaços são tidos como preguiçosos não civilizados – notamos que os gaúchos passam de “outsiders a estabelecidos”.
Portanto, não podemos separar fronteira, migração, modernidade e poder, pois são conceitos que estão atrelados um ao outro no processo de formação de identidade a partir do movimento migratório em que propomos estudar. Essa perspectiva de condição transitório-constante que viemos debatendo ao longo do texto, nos embasa para discutirmos sobre a identidade gaúcha no município de Coxim, pois qual o conceito de identidade a ser trabalho? Identidade é um termo polissêmico e isso depende do enfoque teórico metodológico, pois a categoria identidade é utilizada em diversos estudos como a Antropologia, Psicologia, Sociologia, História, Filosofia e recentemente na Geografia Humana (CHELOTTI, 2010:171), segundo Chelotti existe um consenso em que a “identidade é uma construção social” e nessa perspectiva que buscamos tratar da identidade gaúcha em Coxim, pois buscamos aliar os conceitos de fronteira, modernidade, poder e migração como fatores sociais a fim de que pudéssemos dar conta dessa identidade que é de caráter transitório-constante e permanente, mas é uma construção social ao longo do processo histórico.
Referências Bibliográficas.
CHELOTTI, Marcelo Cervo. Reterritorialização e Identidade Territorial. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/sn/v22n1/12.pdf. Acesso em: 02 de julho de 2011.
ELIAS, Norbert. Os Estabelecidos e os Outsiders. Tradução: Vera Ribeiro. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar, 2000.
HAESBAERT, Rogério. A noção de rede regional: reflexões a partir da migração “gaúcha no Brasil. Revista Território. Disponível em: http://www.revistaterritorio.com.br/pdf/04_5_haesbaert.pdf. acesso em: 02 de julho de 2011.
LISBOA, Severina Sarah. Os fatores determinantes dos novos movimentos migratórios. Revista ponto de vista. Viçosa, v.5. Disponível em: <http://www.coluni.ufv.br/revista/docs/volume05/fatoresDeterminantes.pdf>. Acesso em: 01 de Julho de 2011.
MARTINS, José de Souza. Fronteira: a degradação do Outro nos confins do humano. São Paulo: Contexto, 2009.
ROCHA, Betty Nogueira. Em qualquer chão: sempre gaúcho: a multiterritorialidade do migrante “gaúcho” no Mato Grosso. 2006. 160 f. Dissertação (Mestrado) –
Instituto de Ciências Humanas e Sociais. Universidade Federal Rural do Rio de
Janeiro, Seropédica, 2006.
RUSSELL, Bertrand. O poder: uma nova análise social. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.
SIMÕES, Vinicius. Anthony Giddens e as conseqüências da modernidade. Revista espaço acadêmico. Maringá, n. 38, jul. 2004. Disponível em: <http://www.espacoacademico.com.br/038/38csimoes.htm>. Acesso em 02 de julho de 2011.
SILVA, H.M.S; SILVA, Suely dos Santos. Fronteira: uma categoria histórica. Revista Itinerarius Reflectionis. Jatai. V. II. N.5. jul/dez 2008.
WEINGARTNER, Alisolete Antonia dos Santos. São Gabriel do Oeste: memória e Imagens de uma história. Campo Grande Midiograf. 2005.
[1] As Unidades Federativas de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, era uma única unidade até 1977, com a Lei Complementar nº 71 de outubro de 1977, o Presidente da Republica Ernesto Geisel criava o Estado de Mato Grosso do Sul, mas a instalação se deu no dia 1º de janeiro de 1979.
[2] Coxim, localizado no Norte do Estado de Mato Grosso do Sul a 250 km da Capital, Campo Grande, e situado às margens da rodovia BR 163.
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